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A Boa Surpresa Sobre O Que Foi Ruim

Aí, vem aquela surpresa. Não dói mais. E quando doeu, doeu pouco. Foi mais simples de levar, de lidar. Não foi um processo simples, claro. Foi sofrido, sim, mas nem tanto assim, sabe? Nem levou o tempo que costuma(va) levar para... passar.

De repente, em coisa de 100 dias, eu desabei de uma altura considerável e eu me reergui o dobro dessa medida.

Estava tudo lá. Acontecendo, fluindo. Tudo estava, de fato, caminhando abertamente para o que queríamos. O que sonhamos. O que começamos a planejar com toda cautela, todo medo, todo delírio, toda alegria, toda excitação... Sentíamos ser dois doidos. Duas crianças com um mundo de possibilidades. Com essas possibilidades bem nas nossas mãos. Dois adultos pensando quais seriam nossas mais sábias decisões. Tínhamos as nossas vidas ali, amadurecidas, no auge, no último momento, aquele momentinho que parece que a gente tem que abocanhar antes que caia do pé e apodreça no solo. Sem nem virar comida de passarinho. Sem nem ficar pra semente.

Então, mordemos.

Pegamos tudo o que tínhamos e... desprezamos. Achamos pouco. Sem graça, sem gosto. Feio, disforme, intragável; casca estragada, conteúdo machucado. O dente bateu no caroço várias vezes. Engolimos sem mastigar em algumas outras. Engasgamos. Cuspimos, raivosos, o bagaço. Imaginamos que tinha um bicho vivendo ali dentro que a gente não conseguia encontrar, mas que tinha, sim. Nada prestava. Seco, massudo. Era o sabor da realidade. Um sabor amargo, de cal, ácido, aguado - cada hora, um desses. Matou nosso paladar. Deixou a gente com múltiplas fomes.

Logo, não nos queríamos. Era só insatisfação, desgosto, alvoroço, morgação. O resto de poesia, de encanto, de sentimento foi o que nos alimentou até o fim do fim. Chegamos ao término desnutridos do que acreditávamos que teríamos em abundância. Foi o susto.

Apostamos em fantasias que, mal foram criadas, já foram esmagadas pelo dia a dia. Uma por uma, evaporaram. E o horizonte que olhávamos, juntos, virou de cabeça pra baixo antes de desvanecer por completo. Sensação de pé sem chão, de estaca zero, de destruição incalculável, de "e agora, que tudo desapareceu?"

Por mais que fosse um lugar conhecido, não era onde eu queria estar. Não sei você, nesse momento. Talvez, sim. Na verdade, eu não quero mais saber de você agora. Virou um "pouco importa" infinito.

Água dada de conta-gotas no deserto. Migalhas que nem as formigas queriam. Foi complicado me desgarrar do absurdo. Daquele eco no vazio que me assombrava sob a luz do sol. Do vento forte à beira do penhasco. Da solidão de partilhar o valioso e infrenável tempo com quem não... não... não sei nem dizer.

Estava tudo regredindo, mas eu seguia. Nadava contra a maré parada, pesada, lodenta. Você cobrava de mim tudo o que não tinha pra me oferecer. E tinha medo de aceitar, de receber. Você queria lama, eu queria água cristalina. Você era fonte rachada de tão seca. Chorei as águas que eu tinha sobre o chumbo do seu coração lacrado, escuro, ausente. Você só lamentou o seu próprio fracasso. E eu fazia parte dele, pra você.

Quis ir embora. Você me acusou de covarde, por fugir. Quis ficar. Você se sentiu invadido, eu era a intrusa. Quis ter com você uma boa convivência. Você plantava guerra. Chamamos nosso amor de experiência. "Obrigado(a) por essa experiência". E nos despedimos como se fosse a perda de um ente querido. Como se estivéssemos perdendo um membro do corpo. E não tivesse mais remendo que permanecesse vivo.

Depois de tudo, aquele nada. Habitual. Seguro. Triste. Moroso e choroso. Mas, de gotas amiúde. Umas duas ou 3, assoa o nariz, segue em frente com as loucuras do cotidiano. Com o amor raçudo da pequena e brava família. Com a paz de não precisar viver um inferno gelado na alma. Cansei inteira. Cansei (mais uma vez) da vida que parece não evoluir, de não sair pela tangente pro intangível. cansei de cansar e de pensar sobre isso.

De uma semana para a outra, você me perguntava sobre como estava a minha cidade... sobre minha família... sobre o clima... nunca sobre mim. Eu apenas respondia sobre o que você perguntou. Muitas coisas aqui, eu (ainda) queria dividir com você, talvez pela força de um pequeno hábito que foi criado. Gravei os pássaros cantando a aurora numa praia e te mandei. Fotos de mim mesma com sorrisos felizes e te mandei. Minha voz falando que eu tinha que te contar o que eu pensava... e não te mandei. Guardei tudo pra mim, pro papel, pro áudio. Porque não tinha mais por quê você saber.

Resolvi mandar um cartão escrito à mão. De Natal. Agradecendo. Pelo bom e pelo mau que vivemos. Pelo amor implícito, torto, sem cara de amor de filme. Sem te apontar todos os seus problemas que me causaram problemas ao se misturarem com os meus problemas. Era o fim da linha do ano, que foi o inteiro nosso. Eu necessitava muito mais cortar esse laço que virou nó do que de verborragizar todas as minhas exaustões, minha frustrações, meu desejos de futuro, minhas saudades, meu grande alívio de não estar mais contigo.

Era um ponto final na "experiência". Ou uma encorpada tentativa de.

Anexado ao cartão, uma foto. Uma das raras fotos da gente. Num raro dia feliz. Sorrindo, brincando, sendo bobos, sendo companheiros. Juntos. Acabou sendo um símbolo deprimente, sem muito valor. Que vai sempre nos lembrar que, em todos os outros dias, fomos muito mais infelizes do que pretendíamos, mas nada além do que fomos capazes de sermos na nossa honestidade recheada de traumas, medos, negatividade e covardias.

"Você evoca o que eu tenho de pior", você me disse depois de dizer na metade anterior do ano que eu te fazia um homem melhor. Fica pra próxima. Espero que com ela seja só a parte do "melhor". Pra mim, isso você também disse, você "não pode ser bom". Mas eu troquei o "não pode" pelo "não quer" e tudo fez mais sentido. E ficou mais fácil pra mim.

É uma grande e boa surpresa não sofrer mais, não pensar mais sempre em ti, cuidar da minha vida, meus todos defeitos que foram tão continuamente apontados ao seu lado, criar novos sonhos que não te incluem... Não falar mais contigo tem me feito bem.

Contudo, vou guardar essa "experiência" no meu coração, porque é o lugar que ela merece. Mas a vida que vem... tem sido o retorno da minha história. Só minha. Por enquanto. Favor não voltar. Já foi. Você foi ótimo em me fortalecer e em me fazer não te querer com menos empecilhos do que o normal. Não detone tudo outra vez. E, mais uma vez: Obrigada. Pois, mesmo sendo tudo sempre tão ruim entre nós, eu saí disso maior e melhor do que entrei.

E, ah: de nada ;)

Sozinha no Cinema Vazio

Lá fui eu, aproveitar o resto daquela tarde de resolver problemas num shopping (sim, vocês sabem, né, que além de lojas e praças de alimentação, os shoppings hoje em dia abrigam vários serviços, como clínicas, bancos, lavanderia, casas lotéricas e, no meu caso naquele dia, Detran). Na verdade, acabei não resolvendo nada, porque (vocês também devem saber muito bem disto...) nem sempre a gente consegue solucionar uma questão quando precisa ir a um órgão público, lamentavelmente.

Cinema. Eu nem sabia o que estava em cartaz, mas acabei apostando num filme da linha adolescente, mesmo não sendo uma (quer dizer... risos!). Independente que sou e anti-social que estava, me dirigi à uma das máquinas de ingresso e saquei o meu pro filme estava começando, o que me fez correr (ainda que eu saiba que o filme leva, sei lá, uns 10 minutos pra começar, eu não admito perder os traillers de outros filmes. Às vezes, só de assistir ao trailler, já me dou por satisfeita quanto àquele filme apresentado. Às vezes, o trailler do tal filme só me instiga a conferí-lo por completo - mas isso é raro de acontecer comigo).

Para a minha alegria, a sala estava "vazia": contando comigo, éramos apenas 10 criaturas naquela sessão. Como todo bom ser humano do século XXI, que adora uma certa individualidade e alguma dose de privacidade, sentamos todos uns bem distantes dos outros; quase que matematicamente separados o máximo possível do contato com alguém. Diria até que mal nos víamos, mesmo a sala não sendo das maiores (aliás, era bem pequena se compararmos com as salas gigantescas dos cinemas mais atualizados).

Estava um forno! Acho que por ser a primeira sessão do dia e com as baixas vendas para aquele filme, eles nem se importaram com o funcionamento pleno do ar condicionado, o que me fez ir reclamar pra algum funcionário, que apenas se dignou a dizer que já estava ligado, "já ia esfriar". Como assim? Eu adoro entrar na sala já geladinha, não ficar suando até que começasse a esfriar. Só lá pelo meio do filme, esfriou como eu gosto.

Como eu tinha acabado de almoçar, não comprei pipoca, nem refrigerante, nem nada. Porém, confesso que não sou viciada nesse ritual de cinema = pipoca, porque nunca fez muito sentido pra mim. O filme tem pouco mais de hora e meia... Não dá pra segurar a necessidade de comer algo nesse momento? Fora que eu fico desconfortável com a mão suja de gordura, o sal latejando no céu na boca e as casquinhas de milho entre dentes. Não, melhor não comer pipoca no cinema.

Meu ritual solitário de ida ao cinema consiste em escolher um filme que quero muito ver no dia e lugar que preciso resolver outras coisas, no horário mais próximo (se não, vou embora sem filme), comprar uma garrafinha de água, entrar numa sala fria e escura, sentar num lugar em que eu possa ficar confortável longe dos outros, tirar os sapatos, silenciar o celular e ficar vidrada no filme inteirinho, enquanto fico mudando de posição na poltrona (sou meio agoniada).

Confortavelmente, calculei meu assento para que ficasse bem no meio, um pouco mais pra trás. A mãe e as 3 crianças ficaram lá na frente. Um casalzinho ficou num lado da sala e o outro, no lado oposto. 2 + 2 +... = 9. Aí, a décima telespectadora, ela chegou, meio azuretada. E eu, que estava toda contente e à vontade com as léguas de lonjura daquelas poucas pessoas, ví minha alegria se encolhendo quando, no meio daquela imensidão de lugares vazios, ela sentou-se a uma cadeira de distância... de mim.

Há quem diga que os gatos adoram jogar charme e ficar perto justamente das pessoas que não gostam de gatos, mas parece que com gente é a mesma coisa. Eu não estava querendo socializar e, como sempre que não quero que algo aconteça, acaba acontecendo, a adolescente pareceu buscar certo "abrigo humano" na minha presença, aboletada e perdida no meio do cinema. Eu já estava começando a ficar meio de mau humor, quando ela fala:

- Noooossa, achei que teria mais gente pra ver esse filme...

Deu vontade de soltar uma gargalhada, mas me limitei a responder um "humrum, pois é" com alguma simpatia (com certo medo de que ela fosse ficar puxando assunto comigo a sessão toda). Magrinha, franzina, vestindo calça jeans e aparentando ter lá seus 13 anos, ela estava completamente sozinha. Olha só, tão sozinha quanto eu estava! Levando em conta que eu tenho 20 anos a mais que aquela mocinha e que as pessoas ainda me olham esquisito vez por outra pelo fato de eu ir ao cinema solitariamente, admito que eu me surpreendi de ver uma quase criança tendo a mesma atitude.

Claro que os tempos são outros agora, mas até a década de 90, nós, mulheres e meninas que gostamos de fazer nossas próprias coisas com ou sem companhia, não éramos bem vistas. Pelo contrário! Veja bem, é uma bobagem e sempre encarei assim, no entanto, até hoje, tenho amigas que simplesmente não vão ao cinema sozinhas porque têm aquela mentalidade de que fazer isso é apresentar um atestado de "socialmente derrotada". 

Desde aquele época, já era "permitido" irmos à escola sozinhas, ao banco sozinhas, à casa da amiga, às lojas, às padarias, ao trabalho de alguém ou mesmo ao nosso, pagar contas, ir ao médico, ao cabeleireiro... Tudo sozinhas. Mas havia (e ainda há!) um forte "sentido social" de que para certos lugares, só devemos ir acompanhadas. Não somente por questões de perigo, mas para mostrar pro mundo que não somos esquisitonas ou que ninguém aceita estar conosco. Exemplos disso são festas, missas... e cinemas.

Os homens também sempre sofreram com o estereótipo do "tarado do cinema" se fossem sozinhos (não que isso seja uma lenda urbana: já presenciei umas duas vezes, homens sozinhos se auto estimulando, digamos assim, e me encarando quando eu era adolescente e ia sozinha, o que me apavorou - e muito! - mas que não me impediu de continuar indo quando eu quisesse, mesmo que mais ninguém fosse comigo).

O contrato social quanto a assistir a um filme no cinema ficou estabelecido assim quanto a ir ao cinema comum, em qualquer dia ou hora: se é mulher e vai sozinha, ninguém gosta dela e é estranha. Se é homem e vai sozinho, é safado e esquisito. Ou seja, ir sozinho para esta simples atividade cultural significa(va) ser alguém que não presta. Uau. Clap, clap, parabéns, sociedade preconceituosa.

Sim, pra mulher é ainda pior, como sempre na história dessa humanidade na qual estou inserida. Além de ser assombrada pelo risco de ser assediada numa sessão de cinema pelo criminoso depravado, se ela aceitasse esse risco e fosse assim mesmo assistir a um filme, o que ela queria dizer é que ela estava a fim de ser assediada por um tarado de cinema!!! Ué, tá sozinha por que? Porque "tá querendo"! Que "lógica,", hein? Até nisso, a baixa educação se reflete e dissemina o machismo que nos julga, tolhe e condena.

A independência financeira das mulheres e a proliferação de shoppings e cinemas, contribuiu para que isso de ir só para o cinema passasse a ser visto como a bobagem que é. Câmeras de segurança e vigilantes também. Se você tem um tempinho livre e a oportunidade de ver o filme que gostaria, por que não? Por que esperar que alguém combine um dia, um horário, em que as folgas enfim coincidam para que possam juntos ir ao cinema? E se só eu gosto de filme iraniano ou francês e mais ninguém que conheço se dispõe a pagar e perder tempo indo comigo ver um estilo de filme que acham um saco? Faço o quê, deixo de ir ver sozinha na telona pra quando lançarem em dvd ou no Netflix? Não! Não meeesmo.

Ninguém é obrigado a isso. Não sou cinéfila, mas, particularmente, eu adoro ir ao cinema. Sozinha. Quando vou com alguém, as pessoas falam demais, fazem barulhos com embalagens, dormem de roncar, ficam querendo interação o tempo todo... E eu? Eu gosto de prestar atenção ao filme. Só ao filme. Do começo ao fim. Quero ver, quero entender, quero me emocionar, quero pensar, quero rir e chorar. E os outros? Os outros, durante o filme, querem minha atenção, querem reclamar, querem dar pitaco, querem bater papo, querem usar o celular, querem comer e beber, querem fazer piadinhas de tudo. Desse jeito, ir ao cinema fica chato. Haja paciência.

Por outro lado, não me leve a mal. Não estou professando que ir ao cinema na companhia de uma pessoa agradável ou de uma turma legal não seja uma experiência boa. Concordo que é ótimo ir ao cinema só pela farra de estar bem acompanhada, eu gosto demais. Tenho lembranças maravilhosas de ir ao cinema com minha família, algum namorado ou grandes amigas. Sempre que me convidam, eu tento ir (mas, se acho que o filme ou a companhia é um porre, recuso, sim, risos!). Também chamo as pessoas para irem comigo e é muito gostoso conversar sobre o tema do filme depois da sessão. Contudo, é mais difícil que isso de conseguir combinar e ser legal aconteça. 

Ir sozinha é mais fácil, prático e oportuno. Quando encaro sozinha uma sessão, eu, geralmente, não saio de casa apenas pra ir sozinha ao cinema (mas não tem qualquer problema quando faço isso, ainda que seja raro); acontece mais nesses dias que tenho que sair de casa pra fazer ou resolver alguma bronca e, depois, se tenho tempo, vontade e um cinema pertinho com algum filme que me interesse, eu entro e assisto.

Então, eu adorei. Adorei que a adolescente estava lá, ainda que surpresa com o vazio da sessão, sozinha, de boa, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Porque é, simplesmente, é. Mais do que isso: ela é a prova que essa nova geração é mais igualitária, menos discriminatória, menos problemática com coisas inúteis. Adorei que aquela menina pareceu me dizer que o que sempre fiz achando que era o certo (enquanto todos ao meu redor falavam que era errado) sempre foi o certo a ser feito mesmo.

Eu que achava que qualquer pessoa que se aproximasse de mim ali seria uma espécie de "ladra do meu sossego", risos, desfiz esse pensamento e troquei por essas reflexões importantes. Sem nem ter ideia, ela me deu essa oportunidade de pensar sobre tudo isso, além de assistir ao filme em plena paz e com a "semi companhia" de alguém que representava algo muito maior do que eu imaginava que pudesse ser um incômodo. 

Ela não me incomodou em nada. Não ficou querendo conversar comigo. Não deu risadas escandalosas, nem falou ao celular. Ficou na dela, sem combo de pipoca com refri, somente com seu pacote de biscoito que ela comeu com tanta discrição que eu só reparei mesmo por causa do cheirinho de baunilha e chocolate.

Inclusive, depois da sessão, comprei um pacote de um biscoito pra mim.